I’m your man – Biografia

Aquela que é considerada a biografia de Leonard Cohen foi traduzida para português. I’m your man – A vida de Leonard Cohen, de Sylvie Simmons, edição da responsabilidade da Tinta da China.
A edição ocorre num tempo em que vida e obra de Cohen são vistas, revistas e aumentadas: livros de poesia, álbum musical póstumo e um documentário sobre um ainda jovem Leonard.

Não espanta, se atendermos ao facto de que o canadiano conseguiu uma – essa sim, algo surpreendente – transversalidade de público (as suas lentidão e interioridade são, em tese, contraproducentes com os tempos de hoje).
Há quem ache que as biografias (sejam em livro ou ditas de viva voz em entrevistas) de artistas (e de figuras públicas em geral) são desnecessárias. Que o trabalho – a obra – deve falar tudo, que o interesse da figura pública se esgota nas suas públicas funções.

Não obstante, antes da profusão de biografias, já muitos, fãs e académicos, se debruçavam pelos bastidores da criação artística, fosse por curiosidade ou para tentar contextualizar – e melhor perceber – os mecanismos da criação e a própria obra criada.

Esta biografia apresenta Cohen sob os prismas da errância geográfica e existencial, da busca espiritual, das relações erótico-afectivas, da inquietação criativa. E da intersecção entre estes tópicos.

Leonard Cohen nasceu judeu, foi criado no judaísmo e judeu continuou, não sem passar por outras religiões e filosofias espirituais, desde logo o budismo zen – foi, inclusivamente, ordenado monge. Aliás, a persona pública de Leonard é um misto do cavalheirismo de cânone ocidental com a etiqueta medieval japonesa. Até a sua faceta de humildade, sendo emoldurada de cortesia british, transporta algo de vénia oriental.

Mas em Cohen há também o romantismo no sentido lato do termo, na glorificação e estetização da perda e do fracasso. Um dos títulos dos seus livros pode resumir este conceito: Beautiful Losers.
E a sua atitude perante a vida transportou este romantismo, bem como aquilo que o canadiano entende ser a honorabilidade da derrota. Dignidade na perda, na(s) morte(s), no sofrimento.

O movimento de Cohen, como o de muitos outros criativos, era, sobretudo, interior. Ainda assim houve viagens, exílios auto-impostos e abertura ao exterior.

Em 2011, poucos anos antes do seu falecimento, Cohen ofereceu uma das suas mais poéticas performances. Não na forma de poema, não na forma de canção, antes na forma de discurso. Discurso de aceitação do Prémio Príncipe das Astúrias, onde o canadiano disse estar ali, de certo modo, para cumprir uma missão – agradecer a quem lhe havia proporcionado a epifania que o levou à escrita (a poesia de Garcia Lorca), assim como agradecer ao precocemente falecido guitarrista espanhol que lhe ensinou os primeiros acordes e progressões melódicas.

Dois momentos essenciais na vida de Cohen, uma vida que, nas relações com as mulheres, na relação consigo mesmo, na busca por inspiração, na busca espiritual, obedeceu, no mais das vezes, a um dos seus versos mais citados: “há uma fenda em tudo e é por lá que a luz entra”.

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